O DESENHO ANIMADO NA TV: MITOS, SÍMBOLOS E METÃFORAS
Resumo
A televisão, ninguém ignora, é um veículo de comunicação da cultura de massa. Esta cultura está impregnada de mitos, símbolos e metáforas, constituindo-se num sistema de projeções/identificações que, paralelamente à cultura religiosa, humanística e nacional, concorre com outras culturas.
Tal constatação nos leva a analisar os conteúdos míticos, simbólicos e metafóricos das imagens e textos dos desenhos animados, exibidos pela TV, afim de decodificar elementos que devem estar respondendo pelas preferências das crianças pelos desenhos animados. E como se propunha no Projeto da Pesquisa, após a etapa de coleta de dados com as 300 entrevistas feitas pela equipe do LAPIC em Parques da cidade de São Paulo, verificou-se a fascinação das crianças pelos desenhos tradicionais, desde que estejam em exibição, mas também pelos novos desenhos, como os japoneses e tecnológicos. Isso nos levou a perguntar sobre o que faz desenhos de origem cultural tão diferente, como os do Japão, tornarem-se preferidos pelas crianças, tanto quanto os tradicionais americanos que, há anos, estão presentes na telinha, e nos milhares de produtos de consumo cotidiano das crianças, estabelecendo-se a rede de materiais e de símbolos presente no ‘mercado cultural’.
Far-se-ão análises sobre os 5 desenhos mais citados pelas crianças. Os objetivos são inúmeros, mas podemos ressaltar o de ampliar o conhecimento sobre a representação social que a infância brasileira, de vários extratos sociais, tem sobre os desenhos animados, veiculados pela TV, oriundos de diferentes culturas, em especial a americana e a japonesa; desmistificar a visão sobre a criança como passiva, que persiste na educação e até entre cientistas.
Analisar os elementos míticos, os símbolos e as metáforas existentes nos desenhos animados é lançar-se na compreensão do processo de interação que se dá entre as crianças e os desenhos, numa rede comunicacional mais ampla e profunda, ao considerar que embora inconscientemente, a criança, através da presença dos mitos nas programações preferidas, não apenas se diverte, mas exorciza os seus medos resultantes das relações com o mundo que a rodeia, sobretudo a família.
A programação televisiva, sobretudo os desenhos e as telenovelas, os dois gêneros de programas preferidos pela audiência infantil, conforme verificou-se na pesquisa anteriormente realizada pelo LAPIC, atingem a subjetividade da criança pela presença de mitos, símbolos e metáforas, através dos quais ocorre o encontro com narrativas que tratam de temas que estão presentes no imaginário social, e que dizem respeito às questões que cada indivíduo faz a si, numa dialética construtora da sua personalidade.
As grandes controvérsias sobre efeitos positivos e negativos da TV resultam de paradigmas teóricos e de metodologias que consideram o universo da comunicação autônomo e independente, ignorando o contexto da interação social das crianças, onde ela elabora as suas representações sociais.
A pesquisa Desenho Animado na TV trouxe contribuições significativas para as reflexões decorrentes de controvérsias sobre os possíveis efeitos da programação televisiva no comportamento infantil.
As falas das crianças vieram reforçar os paradigmas teóricos e metodológicos que subsidiam este estudo, demonstrando que a criança interage com a TV e elabora suas representações de acordo com seu universo sócio-cultural. As crianças imprimem sua experiência subjetiva no conteúdo assistido e constroem mensagens diferentes sobre o mesmo aspecto do enredo ou de um personagem, partindo do seu referencial.
Além disso, a estrutura narrativa e o conteúdo mítico e simbólico dos desenhos animados demonstraram constituir excelente material de uso pedagógico, uma vez que a análise dos mesmos revelou a importância que têm no desenvolvimento cognitivo e no imaginário infantil.
A principal hipótese a nortear esse estudo foi a de que, assim como as telenovelas, os desenhos animados também re-elaboram mitos, símbolos e metáforas que atingem a subjetividade das crianças, auxiliando-as a solucionar seus conflitos internos através de narrativas que tratam do nascimento, da vida, da morte, do herói arquetípico, da Cinderela, do príncipe encantado, do amor e outros, o que nos orientou na busca dos mitos, símbolos e metáforas presentes nos cinco primeiros desenhos que respondem pela preferência infantil:
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Pica-Pau |
Pernalonga |
A Turma do Pateta |
O Máskara |
Yu Yu Hakusho |
Todos os desenhos analisados nos remetem também a conteúdos referentes à ambigüidade Bem e Mal. No Pica-Pau e no Pernalonga a ambigüidade faz parte das características desses personagens e da relação destes com os demais personagens envolvidos nas ações que compõem o enredo dos desenhos.
O que conduz a criança na escolha do desenho parece ser a grande metáfora que se constrói a partir da relação: mitos, símbolos e imaginário infantil.