Lapic - Laboratório de Pesquisa sobre a Infância, Imáginário e Comunicação ECA-USP

“Televisão, Criança e Imaginário:  contribuições para a integração escola – universidade – sociedade”

Resumo

O projeto integrado de pesquisa "Televisão, Criança e Imaginário: contribuições para a integração escola-universidade-sociedade"[1] se propôs a compreender como a criança pensa a TV, como representa o seu cotidiano e como a escola se apropria da programação televisual para utilizá-la na relação ensino/aprendizagem. Para se desmistificar a periculosidade deste meio, buscou-se através do procedimento “História de Vida”, identificar as representações do imaginário infantil e do adulto que viveu sem TV, quanto aos mitos e estereótipos relativos a este meio, levantando-se também a possível interferência nos folguedos infantis que, tendo a rua como palco, permitiam o contato com a diversidade cultural.  O projeto propiciou conclusões teóricas e empíricas que se constituem na produção de conhecimentos sobre a relação TV/criança e imaginário infantil, oferecendo subsídios alternativos para o intercâmbio cultural entre escola/universidade/sociedade.

            A repercussão da pesquisa se deu através da produção de material didático sobre o uso da programação televisual na sala de aula, destinado aos professores (Ensaio de mesmo título da pesquisa); o "I Simpósio Brasileiro de Televisão, Criança e Imaginário" realizado de 16 a 20 de outubro de 1996, reunindo renomados profissionais das áreas da Educação e Comunicação, que contou com a participação de 327 professores; e ainda  um vídeo intitulado "Televisão e imaginário infantil : representações da morte dos ídolos Mamonas Assassinas", dentre outros produtos.

 

Sendo impossível falar das conclusões empíricas e teóricas a que os pesquisadores chegaram (as mesmas encontram-se nos relatórios do LAPIC), faremos apenas alguns comentários.

1.      Apesar de as crianças terem deixado as ruas pressionadas pela urbanização e violência, as brincadeiras preferidas permanecem as mesmas (pega-pega, esconde-esconde (...)), indicando que nelas há conteúdos simbólicos que satisfazem necessidades importantes.

2.      Os desenhos preferidos são os norte-americanos, da década de 40/60 (os de personagem). Tais desenhos, ao contrário dos japoneses, apresentem as seguintes características : a estrutura narrativa semelhante à clássica; o herói é sempre fixo embora os antagonistas possam ser variáveis; o conflito é simples e caricato onde ninguém sai machucado (tudo é um verdadeiro pega-pega); as cores ressaltam o irrealismo contribuindo para o efeito cômico das cenas violentas. A iluminação não é marcada e as sombras inexistem; a música é desligada do real como se pode notar, no Pica-Pau, o “Barbeiro de Sevilha” de Rossini, “Tchaicovsky” em Tom & Jerry e “Guilherme Tell” em Mickey Mouse.

3.      Através dos desenhos de personagem as crianças vivem “o pega-pega” de forma imaginária.

4.      Os desenhos de super-heróis apresentam uma narrativa semelhante a dos contos de fadas onde tudo é fantástico. Os seres se transformam e adquirem poderes extraordinários, através de elixires, como no caso das bruxas, de palavras mágicas como “Shazan!”, “pelos poderes de Grayskull”, por varinhas mágicas, como as das fadas. Segundo O. Rank (1991), o herói é originário de família nobre e o seu destino é marcado por uma profecia, vinda de um sonho ou de um oráculo, que adverte dos perigos que o herói poderá causar aos genitores. Por isto, ele é abandonado em um rio protegido por um cesto ou outro recipiente qualquer, criado por pais de origem humilde, até descobrir a sua origem verdadeira que o leva a uma procura intensa.

Este é “o mito do nascimento”, que as telenovelas usam em suas narrativas (...) Há sempre um filho que procura sua identidade social. É portanto, através da eletronização do mito que a criança, sentindo-se frágil e dominada pelo adulto precisa identificar-se com heróis e anti-heróis onipotentes que a levem a satisfazer os seus desejos fantásticos e agressivos. Segundo Bettelheim (1978) os contos de fadas e as fábulas resolvem problemas inconscientes das crianças sem que elas os percebam. É o caso de “os três porquinhos” que ensinam as crianças sob a forma de metáfora, que a preguiça não ajuda no crescimento emocional, mas ao contrário um trabalho árduo as fará vitoriosa, até sob o domínio do inimigo mais feroz – o lobo.


[1] Pesquisa Integrada financiada pelo CNPq no período de 1994 a 1997.